Um funil excessivamente estreito
O Brasil promove 20 clubes à sua elite nacional. Portugal, com uma fração do território e da população, promove 18. Em uma potência futebolística de dimensão continental, essa proximidade de números é um desperdício estrutural.
A cada temporada, dezenas de clubes menores encerram suas atividades após os estaduais e passam 6 a 8 meses sem calendário. Sem receita, esses clubes perdem patrocínios, fecham estádios, reduzem a base e demitem profissionais. Esse processo enfraquece todo o ecossistema que forma atletas e sustenta os mercados locais.
Uma nova arquitetura
A proposta substitui os Campeonatos Estaduais e o Brasileirão por seis Ligas Regionais — cada uma com 18 clubes na Série A e 18 na Série B, disputadas em pontos corridos ao longo de 10 meses.
- Liga PaulistaSP
- Liga Nordestina9 estados
- Liga SulistaRS, SC, PR
- Liga CentralMG + Centro-Oeste
- Liga Rio-CapixabaRJ, ES
- Liga Amazônica7 estados do Norte
Cada liga regional tem a escala populacional de um país europeu inteiro. Portugal (10 mi), Bélgica (12 mi) e Holanda (18 mi) sustentam ligas que revelam craques e disputam a Champions — e cada uma das seis regiões é mais populosa que Portugal. A menor delas, a Amazônica (17 mi), iguala Holanda e supera Bélgica e Grécia. População nunca foi o gargalo; a arquitetura era.
A proposta cria também uma nova competição nacional: a Copa dos Campeões. 48 clubes, 12 grupos, mata-mata nacional culminando em final única — o campeão brasileiro decidido em mata-mata concentrado, em turno único.
A lógica é essa: em um país-continente, o campeonato nacional já é, por si só, um torneio de escala continental.
Um laboratório que oxigenava o futebol nacional
Fortalecer clubes menores não é nostalgia; é ampliar a rede de captação. Romário veio do Olaria, Ronaldo do São Cristóvão, Rivaldo do Mogi Mirim, Lúcio do Guará. As últimas duas Copas do Mundo que o Brasil ganhou foram jogadas por talentos que despontaram em clubes que hoje não têm palco nacional.
A escassez de novos craques e a perda de identidade da Amarelinha são reflexos — entre outras causas — de uma arquitetura que deixou de irrigar sua base.
O laboratório fechado — em números
| Métrica | Antes de 2003 | Depois de 2003 |
|---|---|---|
| Média em Copa do Mundo | 3,75º * | 6,50º |
| Títulos por Copa disputada | 5 em 17 (~29%) | 0 em 6 |
| Mata-mata em Copa vs europeu | 5 finais vencidas (1958–2002) | 0–7 |
| Bolas de Ouro | 5 entre 1997–2007 | 0 em 18 anos |
| Idade média das grandes vendas | 22 anos † | 19 anos |
Fontes: colocações em Copa via Wikipedia e Olympics.com (2026); mata-mata vs europeus via CNN Brasil; Bolas de Ouro via CNN Brasil; idade das vendas via Portal São Bento, SciELO e Wikipedia dos jogadores.
O corte é a virada de 2003 — quando o Brasileirão adotou o formato-padrão europeu de pontos corridos e as competições interestaduais (Copa Rio-São Paulo, Copa Sul-Minas) foram sepultadas. A tese histórica da seção anterior — talento vem de clube com calendário real; sem calendário, o laboratório fecha — pode ser lida em dado presente vinte e três anos depois. Cinco métricas independentes apontam para o mesmo corte.
As cinco métricas não provam causalidade. Mas é difícil ignorar que todas mudam de direção depois da mesma reorganização estrutural do futebol brasileiro. A hipótese deste manifesto é que isso não é coincidência — e merece ser discutido.
A Seleção em Copa. A média de 3,75º se manteve por quase setenta anos — 1938 a 2002, atravessando duas arquiteturas (pré-Brasileirão e Brasileirão pré-pontos-corridos). Só em 2003 a curva vira: salto de 73% na média, zero títulos, zero finais e a pior colocação da série em 2026 (11º, eliminação pela Noruega nas oitavas).
Idade de exportação. A média de 19 anos tem cara: Endrick ao Real Madrid aos 16, Estêvão ao Chelsea aos 17, Vitor Roque ao Barcelona aos 18. Metade dos €2,6 bilhões exportados pelo país na última década saiu de jogadores com 20 anos ou menos. O clube brasileiro deixou de forjar craque; virou linha de montagem de prospecto.
Bola de Ouro individual. Cinco vitórias entre 1997 e 2007 — Ronaldo (duas), Rivaldo, Ronaldinho, Kaká. Desde o último, dezoito anos secos. Vinícius Jr foi segundo em 2024; em 2025 nem entre os finalistas.
Menos jogos, menos voos, mais futebol
O Botafogo campeão em 2024 jogou 75 partidas — o time que mais entrou em campo no mundo inteiro naquele ano. O Flamengo em 2025 subiu para 79. E nenhum dos dois chegou à final da Copa do Brasil: com o formato atual de mata-mata em jogo de ida e volta, um finalista das quatro competições passaria dos 80 jogos sem esforço. A fase regular desta proposta ainda reduz em mais de 50% os voos interestaduais, porque as Ligas Regionais são intra-região.
Nesta proposta, o teto é 64 jogos — a campanha mais longa que o formato permite, contra os 75 do Botafogo.
O Madureira, do Rio, jogou apenas 13 partidas em 2024 — 11 no Campeonato Carioca (Taça Guanabara), no começo do ano, e 2 na Copa Rio, eliminado na semifinal pelo Bonsucesso já em outubro. No meio, meses inteiros sem jogo. Nesta proposta, um clube desse porte joga 36 partidas espalhadas ao longo de 10 meses. Zero clubes sem calendário em abril.
Recorde de receita, recorde de dívida
O futebol brasileiro nunca faturou tanto: os 20 clubes da Série A somaram R$ 10,2 bilhões em 2024. No mesmo ano, gastaram R$ 8,7 bilhões só com futebol — quase tudo o que arrecadaram — e a dívida chegou a R$ 12,2 bilhões. Vários clubes gastam mais do que ganham. Recorde de receita e recorde de dívida, lado a lado: o modelo atual não é o porto seguro que a resistência à reforma imagina, é uma máquina que gira cada vez mais dinheiro com margem cada vez mais fina. E esse dinheiro é brutalmente concentrado — cinco clubes detêm 49% de toda a receita do país. A arquitetura atual afunila o dinheiro pelos mesmos poucos por onde afunila o calendário.
A reforma não promete que o futebol vai faturar mais amanhã. Promete distribuir melhor o que já existe — e o mercado não é hipótese. Os estaduais já se vendem: a Record transmite o Paulistão até 2029, e um grande de São Paulo recebe cerca de R$ 40 milhões por um torneio de três meses. A reforma pega esse produto que já tem comprador e o estende para dez meses. O que hoje morre em abril vira uma liga anual.
Duas linhas melhoram por construção. A bilheteria — que já cresce mais de 20% ao ano — sobe com clássicos regionais semanais e estádio cheio. E o custo, como vimos, cai — menos jogos, menos voos, porque as ligas são intra-região.
Um exemplo resume a lógica inteira. A proposta garante a cada região uma vaga na Sul-Americana — inclusive ao Norte, todo ano. Só a fase de grupos paga cerca de R$ 5 milhões, valor que provavelmente supera a receita anual inteira de qualquer clube amazônico hoje. Esse dinheiro da Conmebol já entra no Brasil; a reforma apenas garante que uma fatia chegue a uma região que nunca a vê. Ganho para o Norte, custo zero para o sistema. É a reforma em miniatura: não inventar receita, redistribuir a que já existe.
Não é preciso o futebol faturar mais para a reforma valer. Basta faturar de forma menos concentrada — e menos endividada — do que fatura hoje.
O risco honesto é um só: menos jogos nacionais de marca significam menos inventário para a TV. A aposta é que valor por jogo, seis ligas regionais no lugar de estaduais de três meses, mais bilheteria e menos custo compensam a diferença. Não é uma conta provada — é uma aposta defensável contra um status quo que, esse sim, já é frágil. E é de longo prazo: calendário previsível de dez meses é o que atrai SAFs e investimento plurianual — o ativo que o Brasileirão inflado, de receita imediata e dívida crescente, não constrói.
Quatro objeções previsíveis
"O Brasileirão vai perder importância."
A grandeza migra — mas se redistribui em duas camadas com papéis mais claros. A rotina do Brasileirão (rodada semanal, tabela contínua, torcedor grudado no seu clube) migra para as Ligas Regionais. É onde o dia-a-dia do torcedor acontece: clube local, rivais históricos, estádio cheio, 34 rodadas em pontos corridos ao longo de 10 meses.
A decisão do título nacional migra para a Copa dos Campeões — que herda o papel do Brasileirão em formato similar ao pico continental: mata-mata concentrado, 48 clubes de todas as regiões, campeão decidido em campo. O Brasileirão como pontos corridos nacional deixa de existir; o papel que ele ocupava (definir o melhor do Brasil) é herdado por um formato mais próximo do pico continental. A grandeza não desaparece — ela ganha dois papéis em vez de um: a rotina no clube local e o título nacional decidido no mata-mata.
"Vou perder meu time contra os outros gigantes."
Não. O grande clássico interestadual não some — muda de contexto. Hoje Fla × Palmeiras se repete duas vezes por ano em rodadas do Brasileirão, com um dos dois às vezes já sem objetivo na tabela. Na Copa dos Campeões, o mesmo confronto volta a ser acontecimento em mata-mata, com eliminação em campo em cada aparição. Menos vezes, muito mais peso — a mesma lógica que faz a fase final da Champions valer mais, para o torcedor, do que rodada de grupos.
E nada some da sua rotina no seu clube. A tabela contínua e a rodada semanal do Brasileirão migram para a Liga Regional, com os clássicos que hoje o calendário nacional soterra — Gre-Nal, dérbi paulista, Fla-Flu, Atlético × Cruzeiro, Ba-Vi — voltando a ser semanais. Você troca uma repetição diluída por dois palcos com papéis próprios: o rival de bairro toda semana e o rival de outra região quando o placar decide se você continua.
"Ligas regionais criam disparidade técnica."
A disparidade não desaparece — vai continuar existindo Grêmio × Chapecoense-B ou Palmeiras × Ituano. Mas ela muda de natureza: agora enche o Beira-Rio ou o Allianz, dura 90 minutos de rivalidade regional real, e ninguém precisa pegar avião. Disparidade intra-regional custa menos e vale mais que disparidade interestadual esvaziada. E os clássicos regionais — Grêmio × Internacional, Atlético-MG × Cruzeiro, Fortaleza × Bahia — voltam ao centro do calendário.
Há ainda um efeito de segunda ordem que o modelo atual impede: com calendário estável de 10 meses, patrocínio local recorrente e público garantido, clubes como a Chapecoense passam a ter condições para crescer que hoje simplesmente não têm. Três meses de estadual e o resto do ano fechado inviabilizam qualquer projeto de longo prazo. A expectativa é que a própria disparidade diminua ao longo do tempo. E a Copa dos Campeões redistribui, no mata-mata nacional, a chance de disputar em pé de igualdade — o que o Brasileirão só oferecia na tabela final.
"Os clubes grandes vão resistir."
Provavelmente. Mas mesmo os gigantes têm o que ganhar com um teto de 64 jogos por ano. Botafogo e Flamengo, em suas temporadas de título, empilharam jogos a ponto de o esgotamento físico virar tema recorrente nas competições que mais importavam. A proposta dá à elite o que ela mais precisa — menos jogos, mais treino, menos voos. Não é uma proposta contra os grandes; eles também saem ganhando.
E há o lado comercial que a discussão sobre calendário raramente toca. Hoje o Brasileirão vende 380 partidas por ano — inventário extenso e diluído, com valor médio por jogo espremido pelo próprio volume. A Copa dos Campeões inverte a equação: menos partidas, cada uma com peso de decisão — o mesmo formato pelo qual as fases finais de Champions e Libertadores costumam pagar mais por transmissão do que rodada de liga. Os gigantes trocam inventário extenso por inventário premium, no formato em que aparecem mais.
Quem perde, quem ganha
Toda reforma tem custos, e vale nomear os desta. Perde-se inventário de TV nacional — o Brasileirão de 380 partidas por ano sai do ar, substituído por uma Copa dos Campeões concentrada em menos jogos. Perde-se a repetição dos grandes clássicos interestaduais ao longo do ano — Fla × Palmeiras deixa de ser rodada anual garantida e passa a ser confronto de mata-mata. E o arranjo político consolidado em torno do modelo atual — que produz receita recorde e dívida também recorde, concentrada em cinco clubes — contraria o interesse imediato dos que se organizam em torno dele.
Em troca, ganham quase todos. Clubes médios recuperam calendário anual, público local e receita recorrente onde hoje há três meses de estádio aberto. Clubes pequenos deixam de morrer em abril: dez meses de operação, zero clubes sem jogo em outubro. Torcedores regionais ganham o clube local todo fim de semana e os clássicos históricos — Gre-Nal, Fla-Flu, Atlético × Cruzeiro, Ba-Vi — de volta ao ritmo semanal. Jogadores ganham uma base cinco vezes mais larga onde começar e onde ficar. Federações estaduais trocam três meses de operação por dez. E até os grandes clubes saem ganhando o que mais precisam — menos jogos, menos voos, menos esgotamento — e um palco premium (a Copa dos Campeões) para os clássicos que hoje o calendário dilui.
Não é uma reforma sem perdedores. É uma reforma cujos perdedores estão do lado da concentração — de receita, de mídia, de calendário — e cujos vencedores são todos os que hoje ficam de fora dela.
A arquitetura vem antes do calendário
As principais tentativas de reforma nos últimos anos giraram em torno do calendário — e, cada vez mais, no sentido de eliminar os estaduais para entregar o ano inteiro ao Brasileirão-padrão-europeu. É o erro exato oposto do que a arquitetura pede: não é o futebol regional que sobra, é o topo que ficou concentrado demais. Apagar os estaduais é apagar o dia-a-dia do torcedor no seu clube local. Existem discussões sobre escala — SAFs, ligas independentes — mas raramente ganham tração. Nenhuma proposta com apoio real ataca a própria arquitetura.
Outras dúvidas
Por que 6 regiões — e por que essas?
Uma frase resume o desenho: mantenha as cinco macrorregiões do Brasil e estilhace o Sudeste ao máximo.
Norte, Nordeste e Sul entram inteiros — são identidades futebolísticas prontas (a Copa do Nordeste que o diga). O trabalho todo está no Sudeste, e por um motivo concreto: dos 12 clubes historicamente tratados como grandes, 10 estão no Sudeste — 4 em São Paulo, 4 no Rio, 2 em Minas. Os outros dois, Grêmio e Internacional, estão no Sul.
Se o Sudeste ficasse inteiro, uma única região concentraria quase toda a elite do país, e as outras cinco seriam satélites sem nenhum gigante — não um sistema de ligas, mas uma superliga e cinco divisões de acesso. Por isso o Sudeste se divide em três: São Paulo vira liga própria, o Rio se junta ao Espírito Santo, e Minas ancora a região Central. Cada pedaço leva junto um clássico pronto — o dérbi paulista, o Fla-Flu, o Atlético × Cruzeiro. Some o Gre-Nal no Sul e quatro regiões passam a ter um par de gigantes e um clássico próprio toda semana, em vez de uma só ter tudo.
O número 6 também não é chute — é o que a realidade permite. Cada região precisa formar 36 clubes profissionais (18 na Série A, 18 na Série B), e essa regra trava os dois lados. O Norte, com 7 estados, mal reúne esses 36: não dá para dividi-lo mais. O Centro-Oeste, sozinho, também não os reúne — por isso se soma a Minas na Central, em vez de virar uma sétima região frouxa. Menos regiões concentrariam os gigantes; mais regiões deixariam alguma sem clubes para preencher. Seis é o ponto em que cada região é, ao mesmo tempo, grande o bastante para se sustentar e distribuída o bastante para ter competição de verdade.
E o desenho aguenta até o caso mais difícil. A objeção óbvia é a logística do Norte — mas metade da elite amazônica está concentrada em Manaus (4 clubes) e na Grande Belém (outros 4): boa parte do calendário são dérbis, sem voo. Os deslocamentos que sobram vão para as capitais periféricas e ainda assim são mais curtos e baratos que os voos de costa a costa que esses clubes enfrentam hoje. Até a região que mais desafia o desenho sobrevive à própria lógica.
Vou ter que ver meu time grande jogar só contra times pequenos?
Na sua região, você vê seu time contra os rivais que importam: os clássicos que hoje o calendário soterra voltam a ser semanais — Gre-Nal, dérbi paulista, Fla-Flu, Atlético × Cruzeiro, Ba-Vi. É mais rivalidade de verdade, não menos.
O que muda é o confronto entre gigantes de regiões diferentes — Fla × Palmeiras, Corinthians × Grêmio. Eles deixam de ser rodada garantida e passam a acontecer na Copa dos Campeões, com eliminação em jogo. Hoje esse clássico se repete duas vezes por ano, às vezes com um dos dois sem objetivo na tabela; na reforma ele volta a ser acontecimento. Menos vezes, muito mais peso.
E aqui está a premissa de tudo: 20 clubes de elite é pouco demais para um país deste tamanho. Some a Série B e chega a 40 clubes — os únicos com uma temporada nacional longa o bastante para sustentar um elenco profissional o ano inteiro. São cerca de 1.200 jogadores (uns 30 por elenco) em condições de se desenvolver em alto nível, num país de 200 milhões de apaixonados por futebol. É pouco.
A regionalização não é sobre proteger o seu gigante dos pequenos — é sobre alargar essa base. São 216 clubes, cada um com o calendário de dez meses: cinco vezes mais lugares onde talento se forma e fica. Um clube como o América ganha uma temporada inteira para reconquistar torcida local, gerar receita e voltar a revelar jogadores — e a Copa dos Campeões lhe dá o palco para encarar o Palmeiras por mérito, e às vezes ganhar. Quanto mais clubes assim, melhor o futebol brasileiro inteiro — inclusive o gigante que você vai ao estádio ver.
Decidir o título nacional no mata-mata não é injusto?
Os pontos corridos não acabam — mudam de lugar. As Ligas Regionais são pontos corridos puros, 34 rodadas: o melhor da temporada inteira leva a taça da sua região. Toda a lógica do "campeão mais justo" continua viva, no nível em que o torcedor vive o dia a dia.
Só o título nacional vai para o mata-mata — e de propósito. Num país-continente, o campeonato nacional é, por natureza, um torneio de escala continental, e os torneios mais prestigiados do mundo nessa escala (Libertadores, Champions, Copa do Mundo) são todos decididos assim. E não é loteria: 48 clubes, uma fase de grupos que filtra antes, e só então o mata-mata. Você ganha os dois modelos, cada um no lugar certo.
Como isso se paga? Quem compra os direitos de uma liga regional?
O mercado de direitos regionais já existe e já funciona: o Paulistão e o Carioca são vendidos hoje, com emissora, streaming e patrocinador próprios. A diferença é que morrem em abril. A reforma pega esse produto que já se vende e o estende para dez meses. E o pacote nacional não some — ele vira a Copa dos Campeões, onde os gigantes de todo o país aparecem o ano inteiro, em formato de decisão. Liga regional monetiza o mercado local; as copas, o nacional. Duas receitas que hoje se canibalizam numa só.
Sobre os mercados menores, sem rodeio: a Liga Amazônica não vale hoje o que vale a Paulista. Mas a proposta trata isso como ponto de partida, não como teto — e o desenho tem quatro mecanismos de redistribuição puxando na mesma direção. Calendário de dez meses, com bilheteria e sócio recorrentes onde hoje há três meses de estádio aberto. Quatro vagas do Norte na Copa dos Campeões, todo ano — o dinheiro nacional deixa de rodar entre os mesmos 20 e passa a irrigar as seis regiões. Uma vaga fixa por região na Sul-Americana — só a fase de grupos paga cerca de R$ 5 milhões, valor que provavelmente supera a receita anual inteira de qualquer clube amazônico hoje. E a Copa do Brasil aberta aos 216 clubes, com os 108 Série B disputando desde a Preliminar — entrada garantida para todos, e cada fase pagando premiação para quem avança.
Nenhum desses mecanismos inventa receita: todos redistribuem a que já existe. E nenhum promete que a Amazônica valerá, no ano 1, o que vale a Paulista — valor de mídia segue audiência, e audiência se constrói com calendário estável. O subsídio das copas à base não é esmola permanente; é o combustível dos primeiros anos de transição, enquanto cada liga regional constrói o próprio mercado.
As federações estaduais não vão barrar isso?
É o obstáculo mais difícil da proposta, mais que a resistência dos clubes grandes — e vale dizer sem rodeio: acabar com os estaduais mexe com as federações estaduais, que têm os votos que elegem o comando do futebol brasileiro.
Mas a reforma não precisa apagá-las — precisa dar a elas um trabalho maior. Alguém tem que operar seis Ligas Regionais de 18 clubes: arbitragem, tabela, relação com clubes e estádios. Essa máquina já existe, são as próprias federações. O estadual de três meses desaparece; a federação renasce como administradora de uma liga de dez meses — mais jogos, mais receita, mais relevância. A pergunta deixa de ser "como derrotar as federações" e vira "que federação você prefere presidir: a de um torneio de três meses ou a de uma liga do tamanho de um país europeu?".
Isso já deu certo em algum lugar?
Ninguém regionaliza a primeira divisão porque ninguém tem o problema do Brasil: Inglaterra, Espanha e Itália somadas cabem dentro de uma única região brasileira — o Sudeste. O anômalo não é a proposta; é aplicar a solução de Portugal (uma liga nacional só) a um continente.
E precedentes parciais existem. O esporte americano inteiro — NFL, NBA, MLS — é temporada regular em conferências regionais mais um playoff nacional: a mesma arquitetura de Liga Regional + Copa dos Campeões. Com uma diferença essencial que a proposta preserva: as ligas americanas são fechadas — as seis Ligas Regionais mantêm promoção e rebaixamento, com fluxo anual entre Séries A e B como hoje. É a arquitetura americana para a estrutura, o acesso europeu para a mobilidade. E dentro do Brasil, a Copa do Nordeste já prova que futebol regional aqui lota estádio e vende cota. O inédito é elevar as ligas regionais a substituir o nacional no topo — e a proposta assume a ambição. Mas o contrário já foi testado: afunilar um continente por 20 clubes, com o resultado à vista — seis a oito meses de calendário morto e clubes fechando as portas.
E os clubes pequenos, que hoje só jogam o estadual?
São eles que mais ganham. Hoje um clube desse porte joga o estadual entre janeiro e abril e depois passa seis a oito meses sem calendário. Sem jogo não há receita; sem receita, ele perde patrocínio, fecha o estádio, corta a base e demite. O Madureira, do Rio, jogou 13 partidas em 2024 — todas entre janeiro e abril. O resto do ano, portas fechadas. É impossível construir qualquer projeto de longo prazo assim.
Nesta proposta, esse mesmo clube joga 36 partidas espalhadas ao longo de dez meses, com público, receita recorrente e um lugar garantido no calendário. Zero clubes sem jogar em abril. Pela primeira vez, um clube pequeno tem estabilidade suficiente para planejar mais de um ano à frente.
E isso não é nostalgia — é a rede de captação do futebol brasileiro. Romário saiu do Olaria, Ronaldo do São Cristóvão, Roberto Carlos do União São João de Araras. Vários dos craques que ergueram a taça em 1994 e 2002 despontaram em clubes que hoje não têm palco. Fortalecer a base não é caridade com os pequenos: é reabrir o laboratório que oxigenava a Seleção.